quarta-feira, 14 de julho de 2010

"O LIVRO DOS MÉDIUNS", CAP IV: SISTEMAS



PRINCIPAIS LIÇÕES CONTIDAS EM “O LIVRO DOS MÉDIUNS”, PRIMEIRA PARTE: NOÇÕES PRELIMINARES; CAPÍTULO IV: SISTEMAS


Geziel Andrade

Fotos: Fotos do famoso médium escocês Daniel Dunglas Home (1833 a 1886). Sua extraordinária mediunidade de efeitos físicos e inteligentes foi referendada por Allan Kardec. Fonte: Google.

Os fenômenos espíritas, embora averiguados por testemunhos irrecusáveis e por experimentadores idôneos, foram, inicialmente, interpretados de maneiras diferentes, em função de idéias pessoais, crenças e preconceitos.

Assim, apareceram numerosos sistemas.

Se os fenômenos espíritas tivessem passado, desde o início, por uma observação mais atenta, teriam sido reduzidos ao seu justo valor.

Os adversários do Espiritismo viram nessa divergência de interpretações e de opiniões um fato contraditório. Eles disseram que os espíritas não concordavam entre si.

Porém, não levaram em consideração que se tratava dos primeiros passos de uma ciência em desenvolvimento, que permitiria a reunião e a coordenação dos fatos; que levaria à observação mais atenta dos fenômenos e ao estabelecimento da unidade de opinião sobre os pontos fundamentais da Doutrina Espírita. Isto aconteceu rapidamente com o Espiritismo.

Bem observados, os fenômenos espíritas foram divididos em duas espécies: os fenômenos de efeitos físicos e os de efeitos inteligentes.

Os adversários do Espiritismo negaram os fenômenos de efeitos inteligentes nas manifestações dos Espíritos, através de médiuns, porque não admitiam a existência dos Espíritos ou de algo além da matéria.

SISTEMA DO CHARLATANISMO. Quanto às manifestações físicas dos Espíritos, os adversários do Espiritismo atribuíram-nas ao sistema de charlatanismo ou esperteza, mistificação e fraude. Porém, jamais levaram em consideração a posição social, o caráter, o saber e a honorabilidade dos médiuns e das pessoas que as estudavam.

SISTEMA DE LOUCURA. Alguns adversários do Espiritismo atribuíram as manifestações físicas dos Espíritos a um sistema de loucura. Fizeram isso, sem terem constatado nenhuma suspeita de fraude; sem motivo para chamarem os espíritas de imbecis; sem terem razões para atribuírem à loucura a causa dos fenômenos espíritas. Apenas invocaram a si o privilégio do bom senso. Porém, embora a criação desse sistema de loucura, o Espiritismo ganhou a preferência da classe mais esclarecida da sociedade.

SISTEMA DE ALUCINAÇÃO: Alguns adversários atribuíram as manifestações físicas dos Espíritos ao sistema de alucinação ou ilusão dos sentidos. Os espíritas tinham a ilusão de ver uma mesa se levantar e se mover no espaço, sem que isso tivesse acontecido. Porém, não levaram em consideração que as testemunhas desse fenômeno constataram a suspensão da mesa passando por baixo dela, o que seria impossível, se ela não tivesse se elevado do chão. Além disso, a mesa se elevava tantas vezes que acabava por se quebrar ao cair no chão. Além disso, se movia com tanta rapidez que era difícil de ser seguida com os olhos. Assim, era impossível qualquer ilusão de ótica.

SISTEMA DO MÚSCULO ESTALANTE. Alguns adversários do Espiritismo admitiram o sistema do músculo estalante, pelo qual os barulhos e golpes ouvidos pelas pessoas nas assembléias espíritas foram atribuídos à ilusão e à mistificação. As contrações voluntárias ou involuntárias do tendão muscular do pequeno perônio produziam estalos imitando tambor e mesmo executando árias ritmadas. Mas essa teoria não explicava como os estalos ocorriam longe da pessoa imóvel; em lugares diversos da mesa; em outros móveis; nas paredes; no forro, etc.

SISTEMA DAS CAUSAS FÍSICAS. Alguns adversários admitiram o sistema das causas físicas, pelo qual os fenômenos são reais, mas as causas foram atribuídas ao magnetismo, à eletricidade e à ação de um fluido qualquer. As pessoas presentes na reunião espírita formavam uma pilha elétrica humana. Porém, os fenômenos não se limitavam aos efeitos puramente mecânicos. Revelavam uma inteligência; obedeciam a uma vontade; respondiam ao pensamento; tinham uma causa inteligente. A constatação dessa ação inteligente por quem fazia um trabalho de observação atenta levou ao abandono do sistema do agente material.

SISTEMA DO REFLEXO. Alguns adversários admitiram o sistema do reflexo, pelo qual existia a ação inteligente, mas ela era do médium ou dos assistentes, numa semelhança com o que ocorre com o reflexo da luz ou das ondas sonoras. Mas, a experiência demonstrou, por fatos positivos, que o pensamento do Espírito que se manifestava era completamente estranho às pessoas presentes na reunião. Geralmente, era mesmo inteiramente contrário ao delas. Contradizia todas as idéias preconcebidas. Desfazia a todas as previsões. Esse sistema do reflexo não explicava como o pensamento refletido podia fazer escrever pessoas que não sabiam escrever. Como pessoas iletradas podiam dar respostas do mais elevado alcance filosófico. Como médiuns podiam responder a perguntas mentais ou formuladas em línguas desconhecidas por eles. Como ocorria o fenômeno da escrita direta numa folha de papel ou escrita feita espontaneamente, sem caneta, nem lápis e sem contato nenhum. Como o pensamento manifestava-se de forma independente de qualquer expectativa e de qualquer questão formulada. Como ocorriam comunicações de revoltante grosseria numa reunião de pessoas sérias.

SISTEMA DA ALMA COLETIVA. Alguns adversários admitiram o sistema da alma coletiva, pelo qual a alma do médium se manifesta após ter se identificado com a de outras pessoas presentes ou ausentes, formando um todo coletivo que reúne as aptidões, a inteligência e os conhecimentos delas. Mas, como conseguir explicar com esse sistema os ensinamentos sobre Deus e sobre as coisas espirituais que estão acima de qualquer conhecimento humano?

SISTEMA SONAMBÚLICO. Alguns adversários adotaram o sistema sonambúlico, pelo qual a alma do médium produz comunicações inteligentes fora do seu conhecimento, porque tem uma super excitação momentânea de suas faculdades mentais; uma espécie de estado sonambúlico ou extático, que exalta e desenvolve a sua inteligência. Porém, basta haver presenciado como opera a maioria dos médiuns para compreender que ela não resolve todos os casos. Certos médiuns escrevem como uma máquina; sem a menor consciência do que obtêm; sem a menor emoção; sem se preocupar com o que faz: ficam inteiramente distraídos, rindo e tratando de outros assuntos. Alguns médiuns escrevem sem saber escrever. Algumas comunicações são transmitidas por pancadas com a ajuda de uma prancheta ou de uma cesta. Muitas comunicações revelam sinais evidentes e incontestáveis de uma inteligência estranha.

SISTEMA PESSIMISTA, DIABÓLICO OU DEMONÍACO. Alguns adversários adotaram o sistema pessimista, diabólico ou demoníaco, pelo qual existe a intervenção de uma inteligência estranha, mas as manifestações são obra diabólica. Somente o diabo ou os demônios podem ser comunicar, mas não os anjos. Assim, a comunicação é possível só com uma parte do mundo invisível.

Porém, com a descoberta de que os Espíritos são apenas as almas dos homens que já viveram na Terra, constatou-se que os Espíritos não são seres criados fora da Humanidade.

Portanto, as almas dos homens não são demônios. As almas dos homens que morreram não se tornaram demônios.

Pelo contrário, a alma de uma criança que morreu pode vir consolar sua mãe e dar-lhe prova de identidade e de afeição.

O Espiritismo comprova que existem Espíritos maus, porque as almas dos homens que foram maus não se melhoram imediatamente, após a morte do corpo material. Mas, não são demônios.

Além disso, por que razão Deus não permitiria a comunicação dos bons Espíritos para contrabalançar a influência dos maus?

Se só os maus Espíritos podem se comunicar, por que eles recomendam a oração a Deus; a submissão à Sua Vontade; suportar as atribulações da vida sem queixar; praticar a caridade e todas as máximas do Cristo?

Se Deus permite as comunicações dos bons Espíritos é para nos aconselhar para o bem.

Por que Deus permite as manifestações da Virgem e de outros santos, através de aparições, visões, comunicações orais, etc, que são reconhecidas pela Igreja, se estão em contradição com a doutrina da comunicação exclusiva dos demônios?

Certamente, os que pretendem que as comunicações são apenas de demônios estão com medo que os Espíritos contrariem suas ideias e seus interesses. Assim, procuram espalhar o medo.

Sendo os Espíritos as almas dos homens, como os homens não são perfeitos, há também Espíritos imperfeitos, cujo caráter se reflete em suas comunicações.

Há também Espíritos maus, astuciosos, hipócritas, perversos, etc. contra os quais devemos nos prevenir, como fazemos com esses tipos de homens.

Por essa razão, Deus nos deu a razão e o discernimento.

A compreensão deste ponto, evita os possíveis inconvenientes na prática espírita.

SISTEMA OTIMISTA. Certas pessoas adotaram o sistema otimista, pelo qual só há a manifestação dos Espíritos bons. Pensam que a alma livre do corpo material adquire a soberana ciência e sabedoria.

Porém, a confiança cega na superioridade absoluta dos Espíritos torna-se fonte de numerosas decepções. É indispensável desconfiar de alguns Espíritos, assim como desconfiamos de alguns homens.

SISTEMA UNIESPÍRITO OU MONOESPÍRITO. Certas pessoas adotaram o sistema uniespírito ou monoespírito, pelo qual um único Espírito se comunica com os homens. Esse Espírito é o Cristo, o protetor da Terra.

Porém, quando as comunicações são da mais baixa trivialidade, de uma grosseria revoltante, cheias de malevolência e de maldade, torna-se impossível aceitar que provêm de um Espírito do bem por excelência. Portanto, o bom senso e a experiência rejeitaram esse sistema.

SISTEMA MULTIESPÍRITA OU POLIESPÍRITA. As pessoas que adotaram o sistema multiespírita ou poliespírita fizeram observações completas e bem interpretadas das manifestações dos Espíritos; estudaram seriamente a ciência espírita e aprofundaram seus estudos das comunicações durante longo tempo; perceberam os detalhes e notaram as nuanças delicadas nas manifestações dos Espíritos; e observaram uma infinidade de fatos característicos nas comunicações dos Espíritos.

Dessa observação completa das manifestações e comunicações dos Espíritos resultou a formação da crença espírita, pautada na universalidade dos Espíritos. Essa crença consolidou-se nos seguintes pontos:

1. Os fenômenos espíritas são produzidos por inteligências extracorpóreas, ou seja, pelos Espíritos.
2. Os Espíritos constituem o mundo invisível e estão por toda parte; povoam os espaços até o infinito; há Espíritos incessantemente ao nosso redor e com eles estamos em contato.
3. Os Espíritos agem constantemente sobre o mundo físico e sobre o mundo moral, sendo uma das potências da Natureza.
4. Os Espíritos não são entidades à parte na criação: são as almas dos que viveram na Terra ou em outros mundos, desprovidos do seu envoltório corporal; do que se segue que as almas dos homens são Espíritos encarnados e que ao morrer nos tornamos Espíritos.
5. Há Espíritos de todos os graus de bondade e de malícia, de saber e de ignorância.
6. Os Espíritos estão submetidos à lei do progresso e todos podem chegar à perfeição, mas, como dispõem do livre-arbítrio, alcançam-na dentro de um tempo mais ou menos longo, segundo os seus esforços e a sua vontade.
7. Os Espíritos são felizes ou infelizes, conforme o bem ou o mal que fizeram durante a vida e o grau de desenvolvimento a que chegaram; a felicidade perfeita e sem nuvens só é alcançada pelos que chegaram ao supremo grau de perfeição.
8. Todos os Espíritos, em dadas circunstâncias, podem manifestar-se aos homens, e o número dos que podem comunicar-se é indefinido.
9. Os Espíritos se comunicam por meio dos médiuns, que lhes servem de instrumento e de intérpretes.
10. Reconhecem-se a superioridade e a inferioridade dos Espíritos pela linguagem: os bons só aconselham o bem e só dizem coisas boas; os maus enganam e todas as suas palavras trazem o cunho da imperfeição e da ignorância.

Os diversos graus por que passam os Espíritos constam da Escala espírita (O Livro dos Espíritos, II parte, capítulo I, n. 100). O estudo dessa classificação é indispensável para se avaliar a natureza dos Espíritos que se manifestam e suas boas e más qualidades.

SISTEMA DA ALMA MATERIAL. O sistema da alma material admite que a alma e o perispírito não seriam distintos. O perispírito seria a própria alma em depuração gradual por meio das encarnações.

Porém, na Doutrina Espírita, o perispírito é simples envoltório fluídico da alma ou Espírito.

O perispírito é formado de matéria, embora muito eterizada.

A alma e o perispírito são duas partes distintas do ser denominado de Espírito.

Os Espíritos esclarecidos jamais variaram os seus ensinos a respeito da distinção entre a alma e o perispírito.

A existência do perispírito foi revelada pelos Espíritos. Mas foi a observação dos fatos que confirmou a sua existência. Esta se apóia no estudo das sensações dos Espíritos. (O Livro dos Espíritos, Questões 93 e 257.)

A existência do perispírito pode ser constatada no fenômeno das aparições tangíveis, em que se torna perceptível aos sentidos humanos.

A alma ou Espírito, por sua vez, não apresenta nenhuma analogia com a matéria, podendo ser considerada imaterial (O Livro dos Espíritos, Questões 23 e 82.)

REFLEXÕES DO AUTOR DESTE ARTIGO

Neste Capítulo de “O Livro dos Médiuns”, Allan Kardec nos mostra as interpretações divergentes que surgiram dos fenômenos espíritas, quando começaram a ser observados e estudados.

Além disso, expôs os sistemas que os adversários do Espiritismo lançaram para confundir as pessoas e tentar inibir as manifestações e comunicações com os Espíritos.

Então, Allan Kardec analisando as falhas, deficiências, inconsistências, incoerências e pontos fracos de cada sistema surgido para tentar explicar a causa dos fenômenos espíritas, e comparando-os com suas experiências práticas adquiridas com as comunicações com os Espíritos, foi derrubando por terra um a um. Esses sistemas não resistiram a uma análise profunda; não suportaram as observações completas e bem interpretadas dos fatos espíritas.

Chama a atenção, a criatividade dos adversários do Espiritismo ao criarem sistemas que tentavam contestar a existência da alma no homem, sua sobrevivência e individualidade após morte do corpo material e sua comunicabilidade com os homens, através dos médiuns.

Mas, com o sistema multiespírita ou poliespírita, alicerçado em observações completas e nas análises acuradas, todas as questões foram resolvidas com bom senso, lógica e consistência. Assim, prevaleceu sobre os demais sistemas, comprovando a solidez dos princípios da Doutrina Espírita.

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NOTA: Com este artigo, encerramos o estudo das principais lições contidas nos Quatro Capítulos que compõem a Primeira Parte: Noções Preliminares, de “O Livro dos Médiuns”.

As principais lições contidas nesses primeiros quatro Capítulos foram publicadas neste blog em 24/abril/2009; 05/agosto/2009; 02/março/2010; e 14/julho/2010.

Nesses quatro Capítulos, Allan Kardec ressaltou que:
• É indispensável uma observação atenta das manifestações físicas e inteligentes dos Espíritos e um estudo sério e completo dos princípios do Espiritismo para que o adepto não enfrente dificuldades e desilusões ao entrar em comunicação com os Espíritos, através de médiuns.
• A existência de Deus e a existência da alma no homem são a base do Espiritismo.
• A existência da alma no homem é o ponto de partida para a compreensão do Espiritismo.
• As manifestações físicas e inteligentes dos Espíritos dão provas patentes da existência da alma no homem e da sua sobrevivência e individualidade após a morte do corpo material.
• Os Espíritos são, portanto, as almas dos homens, despojadas do seu envoltório corporal.
• O Espírito é o ser inteligente e pensante que sobrevive à morte do invólucro corporal, sendo este apenas um acessório.
• O Espírito conserva sempre a inteligência, a qual constitui a sua essência.
• O Espírito possui um envoltório semimaterial chamado de perispírito, o qual tem a mesma forma humana.
• Em suma, o Espírito é a alma dos que viveram na vida corporal e aos quais a morte despojou de seu envoltório grosseiro e visível, deixando-lhe apenas um envoltório etéreo, invisível no seu estado normal.
• Os Espíritos podem se comunicar com os homens, que são Espíritos revestidos com um corpo material.
• Os fenômenos espíritas têm como princípio a existência da alma, sua sobrevivência à morte do corpo material e suas manifestações aos homens.
• Nada há de maravilhoso ou de sobrenatural nas manifestações e comunicações dos Espíritos, porque estão nas leis da Natureza.
• Sendo os Espíritos as almas dos homens, e como os homens não são perfeitos, há também Espíritos imperfeitos.
• Há Espíritos de todos os graus de bondade e de malícia; de saber e de ignorância.
• Todos os Espíritos estão submetidos à lei do progresso e alcançam em maior ou menor tempo a perfeição.

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